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Ra, Deus solar, no mundo do antigo Egito tem dois olhos: um é o sol e o outro é a lua. Quando Deus abre o olho é dia, quando ele fecha o olho é noite. A propriedade de clarear o mundo é a força universal na qual vivemos. É a claridade do dia. Luz é o olhar de Deus. Na mitologia egípcia o homem é criado da lágrima de Deus, do sol.

A história do olho perdido conta que um dia o sol se perdeu no seu caminho a trás do mar.[1] Ra enviou Schu e Tefnut para procurar o sol. Só que quando este voltou Ra já tinha criado outro olho. O primeiro sol ficou com raiva até que Deus Thot achou outro lugar para este e o colocou numa serpente no meio da testa dos homens “de onde podia reinar sobre o mundo”. Amarrado e individualizado se tornou imperador deste mundo. A luz de Deus se tornou luz do homem.

Platão e Aristóteles descrevem a capacidade de olhar muito mais como atividade anímica–espiritual que física. Platão chama a percepção de “olho da alma” ou “o campo da visão da força do pensar”[2]. Na antiga Grécia a palavra teoria significa contemplação[3]. Euclides, criador da geometria, descreve o raio de visão como essencial para o processo da percepção, argumentando que quando se perde uma agulha no chão o reflexo  físico da luz fica presente independente de nós,  vemos a agulha, a reconhecemos somente quando a achamos, quando dirigimos o nosso raio de visão para a agulha.

Os relatos pós cirúrgicos de cegos natos que ganharam a recuperação física da possibilidade de visão relatam das grandes dificuldades de aprender a ver. Muitos desistem. Gatinhos que vivem com os olhos tampados entre o primeiro e quarto mês não conseguem mais aprender ver depois de tirar os véus. Temos que considerar uma força interna dos seres vivos para o ato de perceber, que está sendo adquirida nos primeiros tempos de vida.

A física moderna procura entender como a luz chegou aos experimentos onde o pesquisador observa a luz como onda ou partícula dependendo de sua intenção. A maneira que se coloca os espelhos e detectores no caminho da luz determina o comportamento observado do raio de luz como onda ou partícula. A sequência de colocação dos espelhos e detectores pode ser decidido e colocado muito depois da saída do raio de luz (do fóton). Isto quer dizer que a observação posterior determine o comportamento observado retroativo de um evento já passado.

O físico Arthur Zajonc escreve: “Trabalhei no Max-Planck-Instituto de óptica quântica perto de Munique na realização do experimento com decisão tardia. (…) Um único Fóton  “se decide” no divisor de raio nem pela existência como corpus nem como onda. Não é nenhum dos dois. A ambiguidade pertence ao ser da luz.”[4]

Como pode ser interpretado e entendido isto. J. W. Goethe dizia: Confie e mantenha-se nos fenômenos. No desenvolvimento da percepção se encontrará a teoria e o entendimento.

Ainda não temos os conceitos para entender a luz. Um dia pelo desenvolvimento de nossa visão e de nosso pensamento o paradoxo da dualidade corpus onda se transformará.

H. Maturana e F. Capra definem as características essenciais dos sistemas vivos como atividade autopoiética (autocriativas) de organizações dentro de uma limitação espacial ao longo de um tempo. Após a morte a limitação exterior se dissolve e as substâncias se perdem no ambiente. Ao longo da vida cada célula tem uma membrana que a limita para fora, gerando forma e a organiza para dentro.

Só que ao mesmo tempo a membrana também é órgão de percepção, órgão de tato, sensível ao toque e contém em si os órgãos dos sentidos, como pequenos furos, janelas através das quais se percebe o mundo exterior. Na percepção pelos órgãos dos sentidos o mundo exterior nos aparece em formas e superfícies, e não como átomos ou moléculas. Átomos não podem ver uns aos outros, máquinas e câmeras também não se vem. Átomos não tem cor, cheiro, sabor, superfícies etc. Somente os seres vivos podem se perceber.

Seres vivos se criam pela membrana como formas e superfícies visíveis e como órgão de percepção. Deus cria pela luz e por seu olhar. Seus olhos são o sol e a lua; o sol que se transformou na claridade de nossa pensar sobre o mundo. O homem é cocriador através de sua percepção e sua clareza no pensar. A divindade está onipresente na percepção. Podemos procurar longe; mas a verdade está mais perto do que imaginamos. Então: Levante seu olhar e procure ver a divindade na percepção!

Luz é invisível, só os objetos iluminados são visíveis. Aprender ver a luz é ver o invisível. Toda manhã o sol nos tira da escuridão para a lucidez. O sol é a origem do crescimento das plantas e a origem de nosso crescer anímico-espiritual.

O nosso pensar e nossos conceitos influenciam a nossa percepção, a nossa percepção determina os fatos do mundo. Por isto temos que nos responsabilizar por nossas intenções. Assim escreve Mateus (22/23): “A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!”

[1] Veronica Ions, Egyptian Mythology, Paul Hamlyn, New York 1975, p. 41

[2] Paul Friedlaender, Plato I, W. de Gruyter, Berlin und Leipzig 1928, p. 12

[3]  No grego THEORIA significa  “contemplação, especulação, olhar para algo”, de THEOROS, “espectador, aquele que olha”, formada por THEA, “uma vista”, mas HORAN, “olhar”. Da internet: origemdapalavra.com.br/site/palavras/teoria/

Este texto se baseou no livro “Lichtfaenger”Arthur Zajonc, Verlag Freies Geistesleben, 2008. Original: “Catching the Light: The Entwined History of Light and Mind” 1993